
Já foi há umas semanas que esta conversa com Horácio Franco teve lugar em Ponta Delgada. Uma troca de impressões, ligeira e descomprometida, ainda na "ressaca" da decisão do veterano piloto deixar os ralis açorianos, e apenas exceptuar a hipótese de provas avulso fora da região. Sem papas na língua, como de costume, fica aqui o resumo das ideias desenvolvidas. No último de 33 anos ao volante, frente ao seu público, do mais carismático e talentoso piloto açoriano de sempre. Uma troca de recordações que, acredite-se ou não, acabou com os olhos a brilhar…
Após mais de 30 anos de ralis, que balanço pode ser feito de uma carreira longa e com muitos sucessos?
É difícil resumir todo esse tempo, mesmo se tenho lido e ouvido uma série de comentários que me deixam bastante contente, tanto os que são feitos por jornalistas como por adeptos dos ralis. Salientando que foram anos com muitos altos e baixos, tenho de destacar o título de campeão nacional de grupo N (2002), a participação no Rali de Portugal como piloto oficial da Skoda (1991) e, fora do país, a actuação no rali da Alemanha (2003), onde terminei logo atrás do (Stig) Blomqvist, um piloto que foi, de certo modo, um ídolo para mim em determinada época. Além desses episódios, naturalmente que há recordações e memórias que me preencherão sempre…
A recente participação na prova maior dos Açores terminou com o lugar de melhor piloto local. Foi a despedida ideal?
Sabia que a paragem de quase um ano poderia acusar uma falta de ritmo que, afinal, não me pareceu gritante. Este ano tinha feito o Rali de Portugal para ganhar alguns quilómetros em competição, o que nem veio a acontecer em pleno mas, já no SATA e após a primeira passagem das Sete Cidades, percebi que afinal me estava a sentir à vontade e com alento para um rali que, confesso, me deu muito prazer a fazer e terá sido dos títulos – de melhor açoriano – mais agradáveis que conquistei.
Como vês o actual panorama dos ralis na região, uma vez que este auto-afastamento tem as suas motivações?
É público que não concordo com o rumo que as coisas tomaram nos últimos anos, mas não quero que pensem todos como eu. Agora, de 2004 para cá, a diferença de orçamentos se tornou abissal entre os candidatos às vitórias é uma verdade absoluta. Mas isso ainda se aceita porque o desporto automóvel é uma actividade cara e onde só triunfa quem tem dinheiro para tal. Agora o que me revoltou foi terem alterado diplomas e legislação regional apenas e somente para favorecer uma equipa e um determinado piloto. Ainda mais porque isso pôs em causa o facto de se ser açoriano e de representar a região, coisa que se desrespeitou, na minha opinião, a nível nacional nos últimos anos. Não me canso de referir que sempre mantive o exclusivo "Açores" nos meus carros quando corri no Nacional de Ralis. Além disso, e como se compreende, o facto de um só piloto ter um orçamento que dá para fazer correr três ou quatro equipas também foi desmotivador.
Como vês a evolução e as condicionantes dos nossos ralis, nomeadamente as alterações que o asfaltamento progressivo vai fazendo em São Miguel?
A principal condicionante que temos actualmente é a de se saber, antes de um rali ir para a estrada, quem vai ganhar a prova. Agora no tocante aos pisos e às dificuldades, tenho de referir o esforço, principalmente em São Miguel, de se criarem troços de raiz. Tudo porque, infelizmente, as estradas boas de terra vão desaparecer todas, embora essa seja, a meu ver, uma falsa imagem de progresso. Mas acredito que a construção das SCUT permita manter boas estradas de terra, como caminhos alternativos e que são também a imagem turística da ilha. Isso e o facto de se apostar em propriedades privadas, e lembro a excelente super-especial do SATA deste ano, são opções de relevo.
E nas outras ilhas?
Aí há a diferença do tipo de piso, embora tenhamos o Pico e o Faial –que teve sempre um rali que adorei – onde há potencialidades para manter troços fantásticos, mas onde ainda haverá terra para se manter essa realidade. Quanto aos troços de asfalto acho que passa sempre pela imaginação e criatividade das organizações, já que há muito por onde fazer correr as provas, excepto em Santa Maria onde o traçado está delineado por si.
O SATA Rali Açores tem, de facto, hipóteses de integrar o Intercontinental Rally Challenge (IRC) já a partir de 2009?
Não me parece. Não que faltem capacidade técnica, qualidades ou condições para tal, mas apenas porque o dinheiro é o que fala mais alto numa competição onde o canal Eurosport é a face visível do campeonato. Nesse sentido, e embora espere que isso seja levado a cabo, sei que há entraves muito complicados de ultrapassar.
É triste ver que as potencialidades de terreno e organizativas dos portugueses se esfumam, no mundo dos ralis, por via da nossa pequenez como país?
Completamente. Ainda se vai tendo o Rali de Portugal, mas porque tem uma estrutura fabulosa e com apoios extraordinários, coisas que felizmente se vão mantendo. Mas é o único cenário positivo, porque de resto as exigências são muito grandes, e pode ver-se, no caso do Rali da Madeira, de que forma é que as entidades envolvidas têm de trabalhar para ter um evento de qualidade excepcional.
Quem vai suceder a Fernando Peres como campeão dos Açores?
Este ano é o Fernando Peres. E espero que seja a última vez. Não por uma questão pessoal, até porque gosto do Fernando e considero-o um piloto com grandes qualidades. Mas está, de facto, um passo à frente de todos os outros e, quando assim é, as coisas são muito complicadas e desvirtua-se um pouco a razão de ser de uma competição regional.
E depois dele?...
Espero que seja o Ricardo Moura, que é o nome que está na calha. Mas apenas se o Fernando não continuar, e sempre caso se mantenham os apoios da Além Mar, pois caso esses acabem, será muito complicado também que mantenha um projecto ganhador.
Que futuro podem ter os pilotos, e os ralis açorianos, quando não houver hipótese do apoio das tabaqueiras?
Vai ser uma desgraça total. Ou então vamos "cair" na nossa realidade, tendo que cingir a dedicação à modalidade ao nosso nível económico. E nem estou a falar em nivelar a competição por baixo, até porque se sabem os custos de carros, como os novos R3, que custam 100 mil euros. Ora, por esse dinheiro, é sempre preferível ter um 4x4 com três ou quatro anos. Ou então vai-se optar pela criação de troféus, de forma a não perder competitividade, mas de uma forma equilibrada.
Quem foi o piloto que mais te influenciou?
Foram várias gerações com que pude conviver, pelo que tive como referências grandes pilotos, desde Waldegaard ou Walter Rohrl, isto ainda nos anos 70, mas depois houve vários pilotos excelentes, embora a minha preferência, até porque são os melhores na terra, vá sempre para os finlandeses. Mas também acredito que a evolução técnica tenha causado esta igualdade de trajectórias que os WRC de hoje demonstram, se bem que a diferença seja actualmente feita por um Loeb que é já um Schumacher dos ralis e o melhor de sempre. Em termos de estilo, sempre fui adepto das grandes derrapagens, pelo que o Vatanen ou o McRae me encheram as medidas durante anos. Não terão sido influências, mas antes um acréscimo ao grande gosto por este desporto.
Tens saudades dos tempos dos Escort RS e Kadett GT/E? Os ralis eram melhores nessa altura?
Tive carros que recordo com alguma saudade, embora o Mazda 323 que guiei na década de 90 tivesse sido marcante. Em relação aos outros considero que o cenário dos ralis da altura motivaram momentos que não se poderão repetir hoje. Os ralis à noite, os treinos e o ambiente são de recordar e, claro, esses carros eram tão difíceis como saborosos de conduzir, transmitindo emoções muito claras e puras. Mas asseguro que não gosto de carros "velhos", ou seja, embora tenha algumas relíquias minhas, os carros antigos só dão gosto se muito bem preparados. Mas não me importava de fazer uma "brincadeira" ou apenas uma exibição…
Fica no ar uma nostalgia prematura por ainda seres um piloto muito competitivo. Sentes isso?
Eu senti isso no SATA deste ano. Estava apreensivo, até porque estive dois anos em que a intensa preparação física dos últimos tempos parou por completo. Isso, se acrescido a correr poucas provas por ano, punha-me com algumas reservas. Mas os primeiros tempos do rali tiraram-me as dúvidas e, ao olhar para a tabela no primeiro dia percebi " ah, está aí o homem"…mesmo com 54 anos!
Foi difícil decidir deixar de correr nos Açores?
Muito difícil mesmo. E foi uma decisão que se apressou por uma questão mínima, mas que te conto…há umas semanas estava a jantar e vi o Luís Rego na televisão, pelo que levantei o som para ouvir, afinal ralis são sempre um tema de interesse. Estava a falar de mim e do número que me fora atribuído no SATA como sendo injusto face ao seu…olhei para a minha mulher e disse, "está decidido, eu tenho de parar, é esta a altura de tomar a decisão…"
Qual é a prova que te falta fazer? E com que objectivos?
Pois…isso foi levantado numa entrevista que saiu há uns tempos em que falei de alguns ralis no estrangeiro, e até num desejo de correr com o meu amigo "Fanã" (Fernando Prata), que está ainda a recuperar de um acidente ocorrido o ano passado. Mas posso garantir que não vou comprar mais carros novos, mas terei sempre um carro de ralis para me divertir…porque isto não se "desliga assim de repente"! E, se puder, farei um ou outro rali no exterior, com um carro alugado ou coisa do género, mas serão coisas que verei na altura adequada. Agora um carro para brincar vai aparecer sempre. Em termos de provas, já o disse e repito, gostava de fazer o Rali da Grécia, já que deve ser um rali com as características ideais para juntar umas boas férias com o prazer de guiar.
Os muitos aplausos eram notórios quando passavas no SATA. O que gostarias de dizer aos muitos adeptos que conquistaste nos ralis?
Foi emocionante, de tal forma que não consegui falar após a última super-especial da prova. Tive, ao longo destes anos, muitas situações boas e más, mas sempre acompanhado por pessoas a quem sei que toquei. Ainda há uns dias tive a visita de um antigo professor, o Dr. Veber, que é padre há mais de 50 anos, e que me veio trazer uma lembrança dizendo "não quero que acabes sem eu te dar uma oferta", o que me deixou bastante emocionado. Sei que houve uma interacção e um retorno que foram fortes, e pude sentir a minha ilha, os meus Açores, de uma maneira intensa. Foi muito positivo e gratificante perceber que valeu a pena dar todo este tempo a um desporto e a um público que me retribuiu com carinho…Obrigado.
-Miguel de Sousa Azevedo - "a UNIÃO" (Texto e Foto)